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29 Mar 2018
O professor Eduardo Carneiro fala sobre o comércio que se tornou a Páscoa, mas com muita profundidade  O professor Eduardo Carneiro fala sobre o comércio que se tornou a Páscoa, mas com muita profundidade

Professor da Ufac fala ao Blog sobre a “chocolatização” da Páscoa

 

 

 

 

 

 

 

 

    O professor universitário Eduardo Carneiro disse ao Blog do Evandro Cordeiro que a Páscoa foi “chocolatizada”, o que minimiza seu significado de importância milenar. Acompanhe ai adiante as explicações mais interessantes sobre a data, comemorada pelos Judeus e pelos não judeus cristãos. Veja:

 

Blog – O que significa Páscoa?

 

Eduardo Carneiro - A Páscoa é um memorial religioso comemorado tanto por judeus, quanto por cristãos católicos, embora cada um atribua significados diferentes a ele.

 

Blog – Então, explique o que significa a Páscoa para o Judaísmo.

 

Eduardo Carneiro - Etimologicamente a palavra tem origem no vocabulário hebraico cujo sentido literal é “passar por cima”. A palavra foi empregada no livro de Êxodo, que faz parte do pentateuco judaico, durante a narrativa da décima praga proferida por Moisés ao povo egípcio. Segundo a narrativa, o “espírito da morte” passaria “por cima” da casa que estivesse marcada com sangue de cordeiro nos umbrais da porta principal, poupando assim, a vida do primogênito que estivesse dentro dela. O próprio Deus judaico estabeleceu o episódio como um memorial quando diz: “e este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo [...] E acontecerá que, quando vossos filhos vos disserem: Que culto é este? Então direis: Este é o sacrifício da páscoa ao Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas” (Êxodo 12:14, 26 e 27). Assim sendo, esta é a origem da pascoa do ponto de vista judaico e a festa pascoal anual tem a ver com a comemoração do êxodo, ou seja, libertação do povo hebreu da escravidão do Egito.

 

Blog – Agora explique o que significa a Páscoa para o Cristianismo.

 

Eduardo Carneiro - Para os cristãos católicos, a páscoa, que ocorre no ultimo dia da Semana Santa, que é a parte final da quaresma, faz referência à “paixão” de Jesus Cristo, sua a morte e ressurreição. Tais eventos ocorreram no período em que os judeus comemoravam a páscoa, e é por conta disso, e do sincretismo religioso com outras religiões que promoviam festas no mesmo período (início da primavera), que a pascoa acabou se tornando uma das principais festas do ano litúrgico católico romano. É bom que se diga que a maior parte dos cristãos de tradição protestante não comemora a páscoa.

 

Blog – Como assim não comemorar?

 

Eduardo Carneiro - Os protestantes entendem que a páscoa era uma festa característica da religião judaica e que ela era apenas uma tipificação, uma sombra, um símbolo, uma prefiguração da obra redentora que Jesus haveria de consumar. Assim sendo, a festa pascoal judaica teria perdido a sua razão de ser com a nova aliança promovida por Jesus Cristo na cruz do Calvário, já que um sacrifício definitivo fora promovido pelo próprio Jesus, o “cordeiro pascoal” (I Co 5:7) “imaculado” (I Pe 1:19), que “tira o pecado do mundo” (Jo 1:29, 36). A páscoa judaica fazia referência a uma morte vicária, a de um cordeiro inocente em favor de um condenado. A casa marcada com o sangue inocente preservava o primogênito da morte. Em analogia, Jesus foi este cordeiro inocente sacrificado em favor de todos os que haveriam de crer nele. Pelo sangue de Jesus, o “cordeiro pascoal”, é que o cristão, pela fé na morte expiatória feita, é poupado da condenação eterna (1 Pedro 1:19). E o memorial da “paixão” de cristo, apesar de ter acontecido no período da ceia pascoal judaica, segundo os protestantes, não é a páscoa propriamente dita, e sim a Santa Ceia.

 

Blog – Explique melhor essa relação entre a Páscoa e a Santa Ceia?

 

Eduardo Carneiro - A chamada Santa Ceia, a última refeição que Jesus tomou com seus discípulos antes de ser crucificado, foi uma ceia realizada no momento em que se dava a ceia pascoal judaica. Como o próprio Jesus disse: “desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” (Lucas 22:15). No entanto, no momento da realização da ceia judaica pascal, Jesus modifica o ritual mosaico, em vez do cordeiro, ele introduz novos elementos – o pão e vinho. E afirma que os fatos a serem lembrados a partir de então seriam a sua própria morte e ressurreição, e não mais a libertação dos judeus do Egito (Mateus 26.26-30). Portanto, os protestantes entendem que o memorial de sua “paixão” não seria a páscoa e sim a Santa Ceia que, como já foi falado, foi instituída no contexto histórico da comemoração da pascoal judaica.

OBS: há, atualmente, uma tendência judaizante dentro de algumas igrejas protestantes neopentencostais de importa práticas, símbolos e festas judaicas, daí ser comum presenciar nelas comemoração não só da festa de pascoa, como também a dos tabernáculos, etc.

 

Blog – E o que ovo e coelho tem a ver com Páscoa?

 

Eduardo Carneiro - Nada! Absolutamente nada. Não tem nada a ver nem com a páscoa judaica e nem com a páscoa cristã. Tanto o ovo quanto o coelho foram incluídos na festa cristã da páscoa por conta da miscigenação cultural e religiosa que aconteceu após a oficialização do cristianismo como religião oficial do império romano. Com a cristianização forçada dos povos germânicos, muitas práticas religiosas “pagãs”, por questões políticas, foram incorporadas ao cristianismo. No mesmo período da pascoa, os germânicos prestavam culto à deusa Ostara (Deusa da primavera), que era simbolizada na forma de coelho. Ora, coelho não põe ovos. Mas os ovos, assim como os coelhos, eram símbolos da fertilidade, por isso, no fim do inverno e início da primavera, era costume adoradores da deusa presentearem-se mutuamente com ovos. É bom que se diga que o ovo era considerado algo místico por inúmeros povos da antiguidade. Portanto, tanto o ovo quanto o coelho foram resultados do sincretismo religioso entre o cristianismo católico romano e o ostaracismo. 

 

Blog – Então comer ovos de Páscoa tem um sentido religioso?

 

Eduardo Carneiro - Sim, claro que tem, no entanto, um sentido pagão, do ponto de vista cristão. Por exemplo, se alguém participar da ceia pascoal judaica, mesmo sem saber, participa de um ato religioso. Assim também, quando alguém consome ovos de pascoa e enfeita sua casa com coelhos, está, mesmo que não tenha consciência disso, pactuando com o patrimônio histórico religioso de culto à deusa Ostara. Muitas festas culturais ocidentais têm origem religiosa, a páscoa é só mais um exemplo disso, o carnaval é outro. No entanto, tanto uma quanto a outra são mercantilizadas, perdendo, com isso, o conteúdo religioso e ganhando formas puramente comerciais. É a capitalização da cultura, isso acontece quando tradições são mantidas e revalorizadas especialmente para dar lucro - estimular a compra e venda de certos produtos e serviços. E claro, promover a alienação coletiva.

 

Blog – E por que ovos de chocolates?

 

Eduardo Carneiro - A história dos ovos de chocolates é bastante recente. O costume anterior era o de enfeitar ovos de galinha com pinturas. A chocolatização dos ovos de páscoa aconteceu a partir da década de 1930 na Inglaterra, quando o cacau passou a ser industrializado em larga escala.

 

Blog – Qual a real data de comemorar a Páscoa?

 

Eduardo Carneiro - Não existe uma data certa, o que existe é uma convenção estabelecida no Concílio de Nicéia (325), que para diferenciar a data da páscoa judaica, leva em consideração a astrologia para marcar a páscoa cristã - a primeira lua cheia após o equinócio de primavera (20/21 de março). Acontece que a tal primeira lua cheia não tem data fixa, tornando a comemoração da páscoa algo móvel ano após ano. Além do mais, como é sabido, no século XV, o Papa Gregório XIII promulgou outro calendário, o “gregoriano”, que pretendia corrigir os erros do  “Juliano”. Isso, obviamente, alterou a data da comemoração da páscoa. No oriente, os chamados cristãos ortodoxos levam em consideração o antigo calendário juliano, comemorando a páscoa geralmente em abril.

 

Blog – Você acha certo a comemoração da Páscoa?

 

Eduardo Carneiro - Acredito que cada um deve fazer uso de sua liberdade de culto e comemorar o que bem entender, porém, o Estado não deveria endossar nenhuma data religiosa como feriado nacional. 

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